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sexta-feira, 17 de março de 2017

Amor não é apenas gratidão. Favor não confundir.

Obs.: O post não é especificamente sobre The Vampire Diaries, mas eu uso como exemplo.

Obs. 2: Pode conter spoilers de todas as temporadas da série. Se você não viu até o fim e não quer saber o que acontece, leia o texto de olhos fechados.

Obs. 3: Eu sei que nos livros nem existe Delena e que na série, não fosse pela saída prematura da Nina, Stelena seria endgame. Mas não foi, né? Então nada de fanboyzar nos comentários.

Obs. 4: TVD à parte, temos spoilers de 500 Days of Summer para dar e vender. Não sei se ainda existem pessoas que não sabem como o filme acaba (acho que isso não é possível), mas tá aí o aviso.


Ao longo desses oito anos de The Vampire Diaries, sempre houve uma rixa enorme entre quem shippava Elena com o Stefan e quem gostava dela com o Damon. O triângulo amoroso foi explorado na terceira temporada, começo da quarta e teve seu fim definitivo na quinta, quando explicações foram dadas e Stelena passou a conviver apenas como os bons amigos que eram.

Dentre os argumentos dos que torciam pelo Stefan, além da justificativa dos livros e de Delena ser "fanservice" (a gente sabe, mores), estava a persistente ideia de que o Stefan fazia de tudo pela Elena e ela era cega por não perceber isso.

E era exatamente aí que eu queria chegar.

Deixando de lado o paralelo com TVD, existe um filme que retrata bem o ponto que eu estou tentando fazer. Em 500 Dias com Ela, Tom e Summer vivem um relacionamento um tanto complicado em que cada um queria algo diferente. Tom era completamente apaixonado por ela e buscava constantemente um algo a mais. Summer não queria o algo a mais e gostava dele, só não tanto assim.

Quando as coisas começam a ficar sérias demais, o relacionamento desandou. Summer ficou completamente infeliz ao ceder para dar ao Tom o que ele queria. Apesar do filme mostrar isso, que alguns casais simplesmente não são meant to be, ainda existem fãs que acreditam que eles deveriam ter ficado juntos no final.

Agora voltamos para Vampire Diaries.

Stefan, sim, sempre fez de tudo pela Elena. Ele moveria montanhas se ela precisasse. Mas por que isso significa que ele era o único que amava ela e, portanto, que Elena era quase que obrigada a ficar com ele?

Qualquer um faz sacrifícios pelas pessoas que ama e, pasmem, muitos fazem sem esperar algo em retorno. Stefan nunca se sacrificou por ninguém porque queria a gratidão dos outros, e sim porque era parte da personalidade dele. Tudo o que ele fez pela Elena (e pelo Damon, diga-se de passagem) foi por amor a eles.

Elena nunca foi obrigada a ficar com o Stefan pelo que ele sentia por ela ou pelo que ele fazia por ela, assim como a Summer também não era. Gratidão e amor não são necessariamente a mesma coisa. Amor e paixão não precisam andar juntos. Você pode amar alguém por quem ela é e pelo que ela faz, mas isso não te obriga a estar apaixonada também. Não existe um Contrato Universal dos Apaixonados que te obrigue a permanecer apaixonada pelo cara só porque ele criaria unicórnios com as próprias mãos pra te fazer feliz.

A verdade mais clichê de todas é que não se manda no coração. A gente não escolhe a dedo por quem vai se apaixonar, e a gente também não controla quando isso vai acontecer. Elena não conseguiu se obrigar a parar de amar os dois irmãos, e não pôde fazer nada quando percebeu que já não estava apaixonada por um deles. E a Elena (tirando todas as partes sobrenaturais e o excesso de tragédias) pode ser qualquer um de nós.

O que eu quis dizer com tudo isso é: ninguém é obrigado a nada. A ideia de que mulheres devem ficar com o cara legal, maneiro, sensacional que faz de tudo por elas é ultrapassada. O pensamento de que o cara legal, maneiro, sensacional que faz de tudo pela mulher só para levá-la para a cama chega a ser desprezível. Sacrifícios por amor devem ser feitos por amor, não por interesse. Afinal, é um sacrifício, não é? Se fosse para conseguir algo em troca a denominação correta seria negócio.

Desejo de todo o meu coração que essa história de querer obrigar a mocinha a ficar com o mocinho porque parece o certo seja colocada para trás. É fofo, é romântico e tudo o mais, mas não é real. Chega de culpar a menina por ter se apaixonado "errado", né? As coisas acontecem como elas devem acontecer. Não existe um interruptor no coração que te permite desligar e ligar seus sentimentos de acordo com o que você pensa ser o mais inteligente a se fazer. 

A gente tem a sorte de poder se apaixonar e quebrar a cara, não vamos desperdiçar isso tentando controlar sentimento com razão. 

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Deixa as mina

Como a boa problematizadora que sou, simplesmente não podia deixar passar em branco a bola fora que a revista Veja  deu nessa semana.

Para começo de conversa, você nem precisa ler o texto em si pra sentir que está sendo sugada até a Idade Média. O subtítulo da reportagem já traz uma bomba de ideais ultrapassados: "A quase primeira-dama, 43 anos mais jovem que o marido, aparece pouco, gosta de vestidos na altura dos joelhos e sonha em ter mais um filho com o vice".

Pera. Quê?

Antes de prosseguir para a problematização, vou deixar alguns trechos da reportagem para que reflitam comigo.

"Marcela se casou com Temer quando tinha 20 anos. O vice, então com 62, estava no quinto mandato como deputado federal e foi seu primeiro namorado."

"Marcela é uma vice-primeira-dama do lar. Seus dias consistem em levar e trazer Michelzinho da escola, cuidar da casa, em São Paulo, e um pouco dela mesma também (nas últimas três semanas, foi duas vezes à dermatologista tratar da pele)."

"Michel Temer é um homem de sorte."

Não vou envolver política no meio porque esse link cada um dá conta de fazer sozinho.

A reportagem inteira tenta vender Marcela Temer como a mulher perfeita. Recatada, dona-de-casa, casou jovem com o primeiro namorado que teve, preocupada com sua estética. Michel Temer é um cara de sorte de ter esse tipo de troféu dentro de casa.

Mas e se ela não quisesse ser assim?

E se ela gostasse de usar roupas mais extravagantes? E se gostasse de trabalhar fora, talvez na política como o marido? E se tivesse namorado 17 caras antes de encontrar o que ela finalmente julgasse perfeito para casar? E se ela não se importasse com estética?

Se Marcela Temer fosse diferente, Michel Temer não teria tanta sorte assim?

Não existe a mulher perfeita. Existe mulher de um jeito, mulher de outro, todas são perfeitas e todas são mulheres. Nenhuma é melhor que a outra. Nenhuma deveria ser mais como a outra. E nenhuma definitivamente deveria se sentir inferiorizada por não ser tão parecida com a outra.

A Veja pecou ao fazer um texto para vender uma imagem que a gente já deveria ter deletado há muito tempo. Mulher não presta só quando está em casa, só quando é dona-de-casa, só quando é o troféu perfeito. Mulher não é comida para prestar, para ter validade, para ter jeito de ser. Mulher é ser humano com sentimentos, com ambições, com consciência. E a mulher pode sim querer ser Marcela Temer, assim como pode querer ser Kim Kardashian, Maria Eduarda de Oms, Julia Souza, Rafaella Gonzales ou qualquer outra mulher de qualquer outro nome que você consiga pensar.

Mulher é como mulher quer e se você tá incomodado, faz um robô e configura ele pra ter as atitudes que você julga ideais.

E, pelo amor de Deus, deixa as mina.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Precisamos falar sobre adolescência (e as tentativas de corrompê-la)

É de conhecimento geral a declaração polêmica feita pelo (agora) ex-BBB Laércio a respeito de namorar meninas de 16 e 17 anos. Na casa, a única participante a falar algo sobre isso foi Ana Paula, fato que não foi bem-recebido por quase ninguém de dentro (e fora) do programa.

Eu obtive dois tipos de reação quando contei esse fato para as pessoas. Algumas me disseram "que nojo, ele é pedófilo"; e outras responderam "e ele gostar de mulher mais nova o torna pedófilo?" (infelizmente, não, eu não respondi que uma das "mulheres mais novas" tem a minha idade).

Não sei se é porque adultos gostam de fingir que nunca foram adolescentes e preferem ignorar a parte do cérebro que lembra como era a fase, ou se é porque eles realmente não lembram como era, mas o negócio é: ninguém parece se tocar de como isso afeta as meninas em questão.

(Friendly reminder: o que eu estou prestes a fazer não é uma análise psicológica profissional, apenas uma análise feita por alguém que está passando pela adolescência e sabe qual a sensação.)

Adolescência é uma fase de transição. Ao mesmo tempo que ainda temos uma cabeça um tanto quanto infantil, sentimos a necessidade de agir com uma maturidade que às vezes nem mesmo existe. Essa necessidade não parte unica e exclusivamente de nós. Ela surge quando tudo ao nosso redor cobra de nós um comportamento mais maduro.

Começa a cobrança para pensar no futuro. Vestibular, ENEM, faculdade. Emprego. O que você quer ser quando crescer? O que pretende fazer quando sair da escola? Se não souber, eu te indico uns testes vocacionais. Você vai à feira de profissões desse ano? Você combina com Direito. Você devia fazer arquitetura. Tem certeza? Medicina não faz muito sua cara, não. Quer ser professor? Isso não dá dinheiro. 

É cobrado de um adolescente de 17 anos que ele saiba o que pretende ser durante o resto da sua vida. Um adolescente, que ainda precisa estar acompanhado de um maior de idade para entrar em alguns shows e festas. Que ainda precisa de autorização para viajar. Que precisa pedir permissão para ir ao banheiro.

Essa cobrança faz com que o adolescente sinta que precisa se mostrar maduro. Precisa mostrar que é adulto, resolvido e dono da própria vida, que sabe o que está fazendo e sabe como agir e lidar com as consequências. Mas, como eu já disse ali em cima, é uma fase de transição. A cabeça infantil ainda está presente.

Durante a sua adolescência, pense em quantas vezes você não foi influenciado por outras pessoas. Seu posicionamento político partia das suas próprias pesquisas ou da opinião dos seus pais? Você costumava gostar (ou desgostar) de alguém com base no que terceiros te diziam? Você, alguma vez, já fez papel de "maria vai com a outras"?

Aí começa a famosa "rebeldia adolescente".

Diferente do que pensam os que saíram dessa fase, adolescentes não se rebelam para incomodar. Para encher o saco. Para dar dor de cabeça. Batemos de frente com adultos não para gerar confusão, mas para mostrar que sabemos o que estamos fazendo. Que somos donos do nosso próprio nariz. Que não precisamos de ninguém nos dizendo o que fazer, porque somos plenamente capazes de agir por conta própria.

E não precisa ser adolescente para saber que isso tudo é balela.

Então juntem esses fatores. A rebeldia, a ingenuidade e a necessidade de demonstrar maturidade. Pensem numa criança agindo como se fosse adulta e responsável, mas sendo extremamente manipulável.

Agora pensem num senhor de 53 anos, todo "descolado", passando a imagem de romântico e zen. Ele aborda a adolescente de 16 anos num "rolê". Fornece bebidas, fala sobre memes e até finge gostar de Lady Gaga só para criar assunto.

Temos um conflito.

De um lado, a adolescente percebe (até de forma inconsciente) a chance de bater de frente com adultos. Afinal, é bem comum que pais queiram regular que tipo de rapazes (ou moças) seus filhos namoram. E apenas uma minoria deles aprovaria uma menina de 16 anos saindo com um homem de 53.

Por outro lado, ela é ingênua. Manipulável. Ela gosta de ser tratada dessa forma. Ele é mais maduro que os meninos de sua idade. E ele pode, de várias formas diferentes, tirar proveito da situação (e da garota).

Preciso continuar?

Adolescentes se envolvem com adolescentes. Adultos se envolvem com adultos. Uma relação entre adolescentes e adultos onde a diferença de idade é de quase 40 anos, me perdoem, mas não é certa ou saudável. E nós não precisamos falar de leis para saber disso.

(Tem um episódio de Modern Family em que a Haley sai com um homem de 40 anos para bater de frente com o Phil, mas eu não lembro qual é e estou com preguiça de procurar. Então, de encerramento, fica esse tweet brilhante:)


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Gentileza é fundamental

Quando eu estava na quinta série, meu professor de Filosofia passou essa música do Lenine em sala de aula e fez uma super reflexão a respeito dela. Durante todo o ano e em algumas séries seguintes, gentileza foi um tema bastante abordado em várias matérias, e sempre rendeu altas discussões cheias de exemplos pessoais e reclamações. Acho que qualquer pessoa que tenha estudado comigo estremece só de escutar "all my life I've been waiting for...", porque é impossível não lembrar do vídeo lindo e sentir um calorzinho no peito. E não acho que eu seja a única que ainda não superou o filme A Corrente do Bem, que nós assistimos numa manhã e me fez chorar durante um bom tempo.

Mas claro que não era sobre isso que eu queria falar.
Era sobre isso que eu queria falar.

Eu sou essa pessoa que segura a porta aberta quando vê que mais alguém vai entrar junto, ou quando está com amigas e deixa elas passarem na frente, ou quando está saindo de um lugar e percebe que tem gente entrando (e vice-versa). Eu sou essa pessoa que fica agradecida quando alguém faz o mesmo por mim, porque gentileza nunca é demais e sempre melhora nosso dia.

Mas gentileza só pode ser considerada uma gentileza quando é feita sem segundas intenções, naturalmente, apenas para ajudar uma pessoa ou facilitar a atividade dela mesmo que seja uma desconhecida.

Gentileza é tipo caridade. Você não deve fazer esperando algum retorno, porque não é esse o espírito da coisa. Você deve fazer porque não custa nada segurar o elevador para o moço que está cheio de sacolas de mercado, porque você só vai gastar um segundo se segurar o portão do prédio e deixar aquela família sair antes de você entrar, porque é desnecessário entrar no banheiro da escola e soltar a porta na cara da sua amiga que estava te acompanhando. 

Essas pequenas atitudes educadas nós não devemos fazer esperando despertar o interesse da pessoa que nos acompanha. Não são feitas para facilitar seu caminho até as roupas íntimas de alguém. São apenas pequenas ações no dia a dia que nós realizamos para transformar o mundo num lugar melhor, começando nesses ambientes familiares que frequentamos todos os dias.

Gentileza é fundamental. Mas gentileza feita para conseguir algo em troca não é educação, é só oportunismo.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Latinos não são megafones. Favor não confundir.

Deviam ter colocado Luke num banquinho. Metade da cara dele sumiu.
 Eu sou apaixonadíssima por Modern Family. Quero começar o post apontando isso para que não vejam o que eu estou dizendo como a visão de uma hater sobre a série, e sim que levem tudo como a visão de uma sobre a série.

Fazendo jus ao nome, Modern Family conta a história de uma família moderna que possuí três núcleos: os Dunphy, que são Claire (a mãe), Phil (o pai) e os três filhos Haley, Alex e Luke; os Tucker-Prichett, que são Mitchell (Prichett, irmão de Claire), Cameron (Tucker) e a filha adotiva deles Lily; e os Prichett, que são Jay (pai de Claire e Mitchell), Glória (segunda esposa de Jay) e Manny (filho de Glória). Os episódios seguem situações vividas pela família tanto em suas vidas pessoais quanto no âmbito familiar.

Agora vamos ao que interessa. Glória é uma mulher colombiana, interpretada por Sofía Vergara, e descrita durante a série como cabeça quente, dramática e "gritalhona". Inclusive, Glória diz que é loud porque é latina. 

(Abro um parênteses aqui para apontar que a própria atriz ajudou na construção da personagem, já que os roteiristas não souberam fazer a pesquisa completa, e está 100% de acordo com os estereótipos. Uma pena que a maioria das outras pessoas não está.)

Em mais de um episódio, Glória demonstrou tomar decisões precipitadas em diversas situações porque seu sangue ferve com facilidade. Ao falar no telefone com parentes, ela tem o costume de gritar e ofender a eles com palavrões em espanhol. Quando descrevem a cultura da Colômbia, dão ênfase especial nas partes agressivas. Perdi a conta de quantas vezes Glória diz que lidava muito com traficantes (por exemplo) em seu país. Isso sem contar que a personagem em si é extremamente sexualizada, e alvo de muitos comentários machistas vindos de outras mulheres (geralmente da Claire).

Basicamente, o povo latino - e vale aqui lembrar que é chamado de latino quem é ou descende de países latino-americanos, incluindo brasileiros - é passado como um monte de traficantes/criminosos/vândalos, que provém de países com cultura estranha (como é bem destacado num episódio de Natal em que Jay ofende as práticas natalinas colombianas que Glória tenta trazer para a casa) e gente esquisita. 

Ah, e a Glória também é descrita como péssima motorista. Coincidência, né?

Não preciso dizer o quão ofensivo e prejudicial essa imagem é para nós, certo?

Um estudo feito pela National Hispanic Media Coalition a respeito desses estereótipos aponta que muitos não-latinos nos Estados Unidos usam termos como "menos educados" para descrever os latinos que lá residem, além de acreditarem que eles têm filhos demais (como se fosse problema de alguém além dos pais), se recusam a aprender inglês (como se fosse problema de qualquer um além deles mesmos) e tiram o trabalho dos americanos (acho que não vivemos no mesmo planeta). Essas ideias são frequentemente repassadas pela mídia, e abraçadas facilmente pela população.

Num dos únicos episódios que a série fez "tentando" desconstruir a ideia negativa que todos tinham da Colômbia, Jay aparece para Glória com duas passagens para a cidade natal dela e se mostra disposto a colocar de lado os estereótipos e conhecer a cultura colombiana pessoalmente. Logo em seguida, Glória aparece dizendo que não queria fazer aquela viagem, porque tudo o que Jay via de negativo em sua cidade era real.

Além da série tratar xenofobia como piada diretamente, faz isso também de forma indireta com a personagem Lily, filha de Cameron e Mitchell. 

Lily aparece já no piloto de Modern Family como a filha adotiva vietnamita dos Tucker-Prichett. Nas primeiras temporadas, ela foi interpretada pelas gêmeas Ella & Jaden Hiller, mas por decisão dos pais das meninas ambas foram substituídas por Aubrey Anderson-Emmons na terceira temporada.

Num episódio, Lily é convidada para fazer parte de um comercial e Cameron e Mitchell vão às gravações. Lá, eles percebem que a coisa toda é só uma grande ofensa à cultura japonesa, e Cam dá uma super lição de moral nos produtores dizendo, entre outras coisas, que aquilo tudo era um tanto racista e que "lily é vietnamita, não japonesa" e que o diretor não saberia a diferença porque via as duas crianças como "estereótipos intercambiáveis", não seres humanos.

E então ele vai até o palco onde Lily e um garotinho estavam sentados, pega a criança e sai.

Exceto que ele pega a criança errada.

Num dos únicos episódios em que a série teve a chance de demonstrar que os asiáticos não são todos iguais e racismo não é piada, obviamente a parte importante foi transformada em piada.

Esse episódio, em que Cameron diz exatamente que "lily é vietnamita, não japonesa", é um dos que me deixa mais chateada na série inteira. A intenção de demonstrar aquilo que eu disse, que asiáticos não são todos iguais, foi por água abaixo muito antes do roteiro sequer estar pronto. Foi por água abaixo na escalação das atrizes que interpretariam a Lily.

Os pais das gêmeas Ella e Jaden contaram numa entrevista à Woman's Day que viram um anuncio no Craigslist procurando por gêmeas idênticas asiáticas. Nessas palavras.

Ella e Jaden são descendentes de filipinos, e Aubrey (que substituiu elas) possuí ascendência coreana. Essa escolha de atrizes fez com que qualquer tentativa de derrubar certos estereótipos a respeito de asiáticos virasse uma grande ironia. Uma grande piada.

Me dói ver que uma série tão fofinha, com tanto potencial para quebrar tabus, tenha acabado por se tornar um poço de xenofobia e preconceito, que ultrapassa a barreira racial e atinge vários outros assuntos. 


Não quero me prolongar demais no post que já ficou bem maior do que eu esperava, então vou problematizar a falta de representatividade negra, o machismo e os estereótipos ofensivos a respeito de gays e lésbicas numa outra oportunidade. Deixo aqui essa postagem para expressar minha raivinha ao ver temas sérios sendo tratados como piada pela mídia. Tantos programas por aí têm oportunidades perfeitas para conscientizar a população, mas preferem usá-las para satirizar pessoas porque isso não faria com que eles perdessem audiência. 

Para não dizer que não falei das partes boas, deixo vocês com esse gif gracinha da Alex e da Haley, as duas irmãs mais fofas de Modern Family.

Se juntassem as duas numa pessoa só, dava eu.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Stop romanticizing abusive relationships 2k16

Depois de dois anos de espera, finalmente me rendi a Belo Desastre. E tenho apenas três palavras para representar o que senti durante toda a leitura: PARA. SÓ PARA.

Li achando que ia ter uma explicação pra essa capa, mas não teve. A imagem foi escolhida aleatoriamente, mesmo.
Não continuem a ler o post se não tiverem terminado o livro e quiserem evitar spoilers. Teje dito.

Abby e Travis são exatamente aquele tipo de casal que mais está em alta nos livros e fanfics de hoje em dia. Romantiquinhos, melosos, cheios de tretas, que terminam e voltam o tempo todo mas sempre ficam felizes no final. Me lembraram um pouco Bella e Edward, principalmente em Lua Nova (quando o Edward decide terminar o namoro e a Bella começa a se colocar em situações de risco só pra ter uma alucinação com ele. Quão romântico e nada problemático isso não é, certo?).

Primeiro, o Travis é completamente louco e dependente dela. E com completamente louco, eu não estou exagerando. Travis se diz totalmente apaixonado por ela desde o primeiro mês, faz duas (!!) tatuagens em homenagem a ela quando eles estavam juntos há cerca de três meses, fala em casamento no mesmo dia que mostra as tatuagens, quebra a cara de qualquer um que ouse falar dela, ameaça qualquer um que ouse falar com ela, quebra os móveis quando acorda e não vê ela na cama, faz cena quando eles terminam. Aliás, não foi uma única cena. Ele fez duas ceninhas e deixou a faculdade inteira a par do relacionamento dos dois (mas ai de quem se metesse, ele partia pra porrada).

Travis é ciumento, possessivo e tem muitos problemas de raiva. Além de ter uma dependência tão grande (emocionalmente falando) que, como ele mesmo disse, não é capaz de dormir, pensar, comer... Nada, quando os dois não estão juntos. O relacionamento deles (chamado de "desastre" por uma das personagens, taí o título) é tão tóxico que todos percebem e apontam, mas Abby e Travis preferem ignorar e seguem estragando um ao outro e a todos que estão ao seu redor.

Isso quando, é claro, os dois não estão fazendo cagadas e sendo apoiados um pelo outro. Tipo quando Travis resolve bater num moço e Abby o incentiva, porque era para "defender a honra dela". É. Se você quer bater no carinha que está fazendo comentários nojentos a seu respeito, vá em frente. Mas mandar o namorado fazer seu trabalho sujo? Amiga... Stand up for yourself.

Mas eu não queria (só) falar mal do livro. Não é para isso que eu estou aqui.

Estou aqui para pedir que isso acabe.

Gente, depender completamente de uma pessoa (emocionalmente falando) não é certo, tampouco saudável. Depositar toda a sua autoconfiança e bem estar nas mãos de um namorado ou uma namorada que você recém começou a sair não acaba bem. Aceitar o comportamento abusivo e violento do seu namorado (e, pior, incentivar) não é romântico. Gente, uma relação que apenas corrói os membros, traz à tona tudo o que há de pior em ambos e afeta até mesmo as pessoas que convivem com eles não é ideal

Já passou da hora da gente parar de encarar esses "romances" como sonhos de consumo. Na vida real, eles geralmente acabam de duas formas: num término péssimo ou em assassinato. E eu, mais uma vez, não estou exagerando.

Belo Desastre é só mais um exemplo de romances abusivos que as pessoas acham bonitinhos. Temos também Crepúsculo, 50 Tons de Cinza, After (aparentemente, nunca li para saber mas só ouvi coisa ruim) e eu poderia nomear mais umas 10 fanfics, mas aí já fica demais. Para 2016, deixo um apelo: PARA GENTE POR FAVOR NÃO AGUENTO MAIS.